Nora entrou na sala de aula, suspirando, ligeiramente enfadada: era início de semestre, calouros. A matéria para a turma de Comunicação era Noções de Linguística e Semiologia. Ela adorava o assunto, era doutora em ambas, mas, convenhamos, calouros, e ademais, alunos de um curso dinâmico como aquele, ela sabia que não seria fácil capturar-lhes a atenção, mas era aquela a turma que ela fora designada para ensinar e não havia muita escolha. Preferia trabalhar com alunos que tivessem um verdadeiro louvor à palavra, os filósofos e lingüistas; verdade, eram ingênuos, mais puristas com a linguagem, mas mais atentos; porém, quem sabe, a experiência poderia ser boa, ainda que ela duvidasse - sabia que as palavras podiam ser usadas para mentir e, ainda que, admitia,não fosse uma das pessoas mais fáceis e flexíveis, ela se conhecia eprezava a verdade científica, o conhecimento per si; temia a mentira que manipula e distorce a realidade. Ora, Nora, pensou, é só a Arte da Comunicação e eles são garotos!
Ela era bonita, quiçá demasiadamente bonita para quem tinha um perfilacadêmico e arraigado à pesquisa.Antes de conhecê-la, as pessoas a imaginavam comouma senhora de cabelos brancos, gordinha e que usasse óculos de graus. Quando ela iniciava uma aula, perguntavam-lhe se era a Assistente da Doutora Goldenberg. Ela sorria, só à metade, vitoriosa, e dizia: eu sou a doutora,prazer. Os apelidos então circulavam: a bonitona da Linguística, A Barbie da Semiologia. Loura, esbelta, olhos claros, filha de alemães, nascida no Sul do Brasil, em casa falavam alemão e ela aprendera português somente na escola; aos vinte e poucos, falava cinco línguas com desenvoltura. Perto dos quarenta anos, sem aparentá-los, a boca era o ponto forte daquela mulher: pronunciada, lábios simétricos, cheios, oralidade da mais pura ordem. Ah, e caminhava como uma modelo na passarela da mais elegante griffe: divina.
Houve casos de alunos que se apaixonaram, sempre um inconveniente Nora tinha a rigidez dos pais protestantes, luteranos convictos. A cidadezinha deles, perdida no tempo, a pequena igreja com placas em alemão, anunciavam a discreta fé, dois cultos por semana, o pai e a mãe, duas vezes por semana, louvavam A Palavra de Deus, e Nora, nada religiosa, descobrira nas palavras da literatura, do cotidiano, da história,a sua divindade.
Preocupava-se constantemente com eles;Dona Ema sofrera uma queda há pouco, por sorte, nenhuma fratura. O pai andava meio cabisbaixo e os irmãos, Elizabeth e Thomaz,moravam na Alemanha. Poucas notícias mandavam. Elizabeth casou, engordou emandou os filhos para a faculdade e Thomaz, pintor germânico nascido nos trópicos, ganhava muito dinheiro pintando paisagens, praias e casinhas.
Nora sempre chegava à sala de aula pelo menos com quarenta minutos de antecedência. Imaginava um modo eficaz de passar aos alunos a teoria do signo de Saussurre, que, mesmo para ela, muitas vezes, parecia-lhe incompleta afinal, ele tinha sido o precursor da Linguística. Sim, ela concluía, era incompleta, pois ele fora o primeiro a pensar naquilo e os que o seguiram só tiveram que acrescentar novas perspectivas. Era fácil criticar os precursores, pensava. Descobrir algo inusitado, isto sim,era dádiva de poucos.
Já sabia de cor o que ia escrever na lousa: «a singular entidade psíquica de duas faces que cria uma relação entre um conceito (o significado) e uma imagem acústica (o significante) - conduz à necessidade de conceber uma ciência que estude a vida dos sinais no seio da vida social, envolvendo parte da psicologia social e, por conseguinte, da psicologia geral. Chamar-lhe-emos semiologia. Estudaria aquilo em que consistem os signos, que leis os regem.».
Era o seu fascínio. As palavras sempre diziam o que queriam dizer? Quanta verdade haveria em uma sentença? O falante dizia o que queria dizer ou mais dizia com aquilo que não dizia? O emissor articulava na maior parte do tempo a língua que falava de modo automático, sem demasiada elaboração, cujo único objetivo era o de se comunicar ou tudo tinha intenções? Quem vinha primeiro, o pensamento ou a palavra? Em uma cadeia de significados espontâneos quanto da personalidade do comunicador se mostrava? O que dizemos representa o que pensamos e somos, verdadeiramente?Deus era uma criação do pensamento e da linguagem, ou seria o pensamento e a linguagem a máxima criação divina? O destino podia ser construído peloque falamos ou era sina?
Pensava nestas questões e desenhava, na lousa, o seu esquema linguístico, para ensinar àqueles jovens famintos por conhecimento o que ela sabia. Desenhava um grande disco. Parecia uma pizza; era o melhor modelo que tinha para explicar a teoria de Saussurre. Usava a própria palavra pizza para iniciar sua explicação.
Olhava para todos, sorria e os seduzia, brincava: isto é uma pizza, depois, explicava. A seqüência fônica de pizza era, primeiro, uma bilabial não sonora, o fonema /p/, depois, imediatamente, realizava-se o fonema /i /, etc., até se chegar ao ruído de cadência sonora /pizza/,osignificante, que quer dizer, normalmente, um disco de farinha originário da Itália, assado ecoberto por diferentes ingredientes - que é alimento, o significado. Então, ela desenhava a pizza na lousa, dividia-a em duas: na parte de cima, escrevia significante=pizza, na de baixo significado=disco de farinha coberto por.... Em português do Brasil, quando algo termina em pizza, quer dizer que não houve uma séria investigação dos fatos. Um significante, dois significados, e, para muitos signos linguísticos, temos o significado um, dois, três, n significados! Neste caso, dois significados para o signo pizza, um, a comida, o outro, a mentira.
Os alunos gostavam, era simples, inteligente. Viva a Pizza! O próprio signo se explicava, em suas duas faces indissociáveis. Sempre sentia o friozinho na barriga. Adorava aquela sensação de estar no começo de algo, gostava da adrenalina. Tinha medo de errar, negava-se, o pai, tão exigente, a mãe, que fora ainda mais bonita do que ela, sempre tãomais generosa, mais concedida, flexível, o significado era fácil, mas entender o significante dos signos, o ruído, a substância sonora que remetia à imagem, esta parte da pizza era difícil de engolir, mas os alunos pareciam satisfeitos. O seu pequeno espetáculo pela magia das palavras havia terminado.
Quando adolescente, Nora tivera um namoro turbulento. O rapaz,muito brasileiro para ser aceito pelo pai dela, por ter sido rejeitado, ficou extremamente deprimido. Depois de algum tempo separados, o jovem se suicidou. Talvez ele fosse depressivo, talvez a separação forçada o tivesse levado ao ato insano. Quem saberia? Nora levou anos para recuperar-se do trauma e por esta razão deixou a pequena cidade onde viviam. Há muito suas relações amorosas não decolavam, ao contrário da carreira. Relacionava-se com o pai amorosamente, mas pisando em ovos. Toda donzela tinha um pai que era uma fera e ela não gostara do lado fera dele.
Fazia tanto tempo que não amava. O amor e seu complô de significados, os significados nos espreitam de cada canto da alma, a cada dobra da pele, encravados nos olhos, nos vincos das bocas apreensivas, em toda língua que toca cada ponto de articulação do signo sonoro-linguístico, a palavra, no palato, no céu da boca não há estrelas, mas zonas de articulação, os fonemas rolam e caem pelos lábios, tudo são sentidos, o signo condensa a vida em sua jornada pelos significados dela, tudo opera e coopera na corrente comunicativa da vida, na evolução do pensamento humano, e no final, tanatos, a morte, nos arrebata. Eu falo para existir, eu existo para dizer que estou e que sou e de que preciso. Comunicar tudo é o jeito que o ser humano encontrou paranão morrer, eternizar o que se diz e o que se pensa é o único caminho possível, a integração com ciclos que não dominamos. Por esta razão, os homens das cavernas pintavam suas caçadas nas paredes, por esta razão os egípcios escreviam hieróglifos em suas pirâmides, os gregos suas tragédias, os hebreus a saga da fuga e os astronautas emitem mensagens no espaço sideral.
Entrou na sala de professores, abriu o livro que tinha à mão, o trecho estava marcado; leu outro pensamento de Saussure: Filósofos e lingüistas sempre concordaram em reconhecer que, sem o recurso dos signos, seríamos incapazes de distinguir duas idéias de modo claro e constante. Aquilo a emocionava. Clareza, constância. o mestre Saussurre teria se apaixonado por algo que não fosse a Linguística? Será que recitava poemas de amor para a mulher amada? O que o excitaria além dos sentidos que as palavras têm? Interrompeu seu pensamento metalinguístico quando o celular tocou. Era a mãe. Notícias ruins: o pai estava muito doente. Nora desligou o telefone, sabedora do que teria que fazer.
Chegou à pequena cidade dois dias antes que o pai falecesse. A mãe, meio em transe,andava esquivamente pela casa, pedindo licença para pisar o chão de madeira, sem fazer ruídos. O médico da família disse que não havia necessidade de uma autópsia, foi câncer no estômago,fulminante. Thomaz e Bárbara só chegaram a tempo para iremao funeral. O culto, discreto, poucas pessoas, a mãe servia strüdel e café forte, silenciosa. Poucos amigos, o caixão baixou, não houve sermões de despedida.
Nora recolheu-se. Lembrava da última conversa com o pai, agonizante. Não chorava porque nunca o vira chorar em nenhum funeral. Ele dizia que temer a morte era luxo de fracos, mas ela sabia somente de algo neste momento: ela o amara. Invejara àquela mãe insossa e bela, que pedia desculpas para caminhar e existir, pois sabia que nunca seria amada como ela fora.
Porém, antes que agonizasse, o pai pedira-lhe algo. Ela não se surpreendeu, sempre o havia visto como um homem reservado, a hora das revelações era aquela, os significados surgiam, incontidos. Havia uma caixa no sótão. Quero que você a pegue e a destrua, sem abri-la, filha. Você sempre foi minha predileta, faça-o por mim.
Nora lembrava das palavras do pai, enquanto media Elizabeth de cima em baixo. Estavam distantes. O irmão, aquele mentia, para si e para os que compravam os seus quadros. Talvez nem os pintasse. Ela jamais o vira pintando e qualquer artesão podia fazer aqueles casebres e florzinhas. Mas ele sabia como vendê-los;ela, porém,não queria saber de nada, só pensava na caixa: Sem o recurso dos signos, não seríamos capazes de reconhecer duas idéias de modo claro e constante. Claro e constante, era este o lema de sua vida. A caixa era como o significante, o que estivesse dentro dela era o significado. Deveria abri-la? Não se nega o pedido de alguém que está para morrer. Manter as coisas sobre controle, saber onde estar. Que importava se não fora amada como a mãe ou bela como ela tinha sido? Ela fora a escolhida para guardar o que quer que fosse; sempre tinha sido assim, desde menina, ele confiava nela.
Olhou mais uma vez para sua pequena família. Ela sabia de coisas que eles nem desconfiavam. Elizabeth era só uma dona-de-casa e Thomaz uma fraude. Então, ela sabia, havia sido amada a caixa tinha sido confiada a ela. O derradeiro desejo. Toda sua vida regida pela lógica dos signos, hoje, apesar da dor da mortedo pai,hoje os signos tinham ainda mais sentido do que antes. Então, Saussurre estava certo: os signos tinham que ser compreendidos sincronicamente. Andavam com o tempo, mudavam, ganhavam novos significados, o tempo era sábio. Pensou em sua pizza e lembrou de que tudo acabava am pizza no país que vivia. Lembrou-se do pai, enterrado ontem, e ela pensou na caixa; quanto signos dentro da caixa haveria, quantos signos flutuavam na mente da linda professora, a dor da perda emaranhava. Tudo virava uma só coisa: o que pensava ser certo o que certeiro sabia e o incerto tudo junto uma massa uma dor tão grande que os pensamentos não obedeciam a uma lógica.
Deitou. Os irmãos partiriam cedo, ela ficaria alguns dias. Comeria strüdel e leria poemas... mas abriria a caixa? Decerto, faria o que o pai lhe dissera ela a queimaria, não olharia para o seu interior. Lembrou-se de Pândora, não, não a abriria. Tinha as idéias claras e constantes, como era de se esperar de uma linguista,por que as mulheres sempre se atinham tanto ao pai? O pai da Linguística era Saussurre, ele teria amado? Ela amara só uma vez e invejara a mãe. Pobre Ema. Pedindo licença para pisar, o strüdel sempre tão bonito e saboroso, cortava-o em rodelas.Talvez fosse daí sua idéia de usar a pizza para descrever o signo lingüístico; nunca pudera ser boa cozinheira como a mãe era. Duas idéias claras e constantes, como amara o pai, que a proibira de amar, seu Romeu suicida, ela ficara, rígidae quase eterna, um signo ela mesma, a dupla face da mulher, eu amo, eu odeio, eu quero, e eu receio.
Finalmente, os irmãos partiram, com suas incompetência e mentiras, ela não choraria. Leu os poemas de que gostava, alguns em alemão, linda língua a de se seus pais, havia chiados tão sonoros, os sons da língua, o significante era tão palpável em sua audição, o significado tínhamos de encontrar dentro de nós mesmos. Tudo terminava em pizza em um país onde não se acreditava na disciplina. Disciplina germânica, aprendera com o pai. Por que Thomaz era mentiroso e Elizabeth tão sem graça? Culpa da mãe, só fora linda e hoje pedia licença para pisar no chão. O que seria dela agora que o velho alemão se fora? Se reuniriam para comer strüdel?
A caixa. Subiu ao sótão. Lembrou de sua adolescência. Por que não pudera amar? Porque as leis que regem os signos não permitiram, o pai não pudera entender sua diacronia nem sua sincronia, o que ela fora, o que ela seria e era, o tempo sempre sábio, a morte dele viera e havia agora uma missão. A caixa era seu legado e, sem que nada acabasse em pizza, as idéias de modo claro e constante, como ela tanto gostava, duas partes, o significante e o significado, lá estava ela, exatamente onde ele dissera que estaria. Era média, nem precisaria de ajuda para tirá-la dali. Com os dois braços a ergueu, desceu em silêncio os degraus, a mãe dormia. Lá fora, o pequeno forno, já acendido, esperava para incinerar a caixa de madeira, o antigo cadeado feito em Frankfurt a trancava. Não a abriria, ainda que sabia onde estava a chave. Ele não dissera, mas ela não era tola, a bonitona da Linguística, ria consigo mesma, os alunos a divertiam, por isto fazia a pizza em duas partes, para que compreendessem, para que se alimentassem de conhecimento, como a mãe a alimentara com strüdel.
Colocou-a no chão. Talvez Saussurre tivesse amado a esposa como o pai tinha amado a sua mãe. Ela não sabia, nunca se interessava por estas coisas, desde que o namorado adolescente se suicidara. Ela tinha as idéias claras e constantes.
Ergueu a caixa, preparou-se para atirá-la ao fogo. A chave do cadeado estava no armário da cozinha, escondida em um canto falso. Sempre a vira ali, desde pequena, desde adolescente, sabia agora que cadeado ela abriria. Abriu-a, sem a menor culpa ou sequer se lembrou do que o pai pedira. Abriu e começou a ler os papéis, o dever, era o que tinha que ser feito, os signos tinham de ser decifrados e compreendidos.
Os documentos fechados em pacotes amarelos foram sendo abertos, um a um. O primeiro passaporte que lhe veio as mãos estava em hebraico. E outro. Mais outro, de um judeu alemão. Um jornal nazistadizendo que os judeus eram os culpados das crises. O pai, o editor. Lista de judeus denunciados. O pai, o delator. Lista de judeus executados. O pai redigia cartas às famílias, aos governos,dizendo que haviam perecido por pneumonia. Lista de pessoas assassinadas, incineradas, transformadas em mercadorias. Cartas alegando as necessidades de uma Alemanha que se erguia com a liderança do Führer. Lista de nazistas refugiados no Brasil e na Argentina, o pai os organizara.
Nora olhava as chamas do pequeno forno se extinguirem lentas, os papéis espalhados no chão, a mãe dormia. Olhou para o quadro pendurado na varanda era de Thomaz. A paisagem representava umafamília preparando o pão. Preparou uma xícara de chá, grande, as lágrimas desciam caudalosas sobre o lindo rosto da professora, a colher mexia a infusão, em círculos concêntricos, que de onde vinham, para onde iam?
Suas idéiasnunca mais seriam claras e constantes.
Os direitos autorais deste conto são da Biblioteca Pública Municipal de Toledo, PR.