Os dedos juntavam os pequenos retalhos e os colocavam lado a lado sobre a cama ainda sem a colcha em que eles se tornariam. Separava os restos de linhas de lã dos tricôs do inverno severo que já adentrava o velho telhado marcado pela fuligem do fogão à lenha; as paredes de cal mais pareciam nuvens cinzas amontoadas. As linhas e os retalhos, todas as cores: verdes, vermelhos, amarelos, e quando juntos, tornavam-se mais coloridos ainda - davam o tom de vida naquele ambiente escuro; sua missão era uni-los, com as mãos magoadas pelo trabalho na roça de manhãzinha,à tarde, depois, fazer aquela colcha, interminável e bela, pedaços tão miúdos, à luz do lampião cheio de querosene e depois de horas não podia mais iluminar, depois os calos dos dedos doíam, o breu era fundo lá na mata, ela assoprava o pavio, deitava o corpo franzino e tremia: depois, o marido não tardaria a querer, vinha por detrás, ele não queria mais filhos, eram oito, e dois meninos somente, que crescessem depressa e resmungassem pouco, a roça os esperava; as meninas se casariam com os primos varões e então não pagariam os dotes. Tudo tramado. O depois era agonizante como o agora, sempre.
Ele a forçava entre os lençóis de saca, agarrava as pernas finas e segurava os quadris magros, as mãos deles imensamente ríspidas, ela sangrava dolorida, mas agüentava, o temia e nunca teimava, sempre sim, então, costurava os pedaços para que compusessem a colcha de retalhos, sangrava todas as noites, os dedos escuros uniam os pedaços tão diferentes entre si, um derramamento de cores, a agulha grossa que unia as lãs aos retalhos, furava o dedo e sangrava, guardava e sangrava, quase todas as noites, a luz do querosene era pouca, a agulha a penetrava sem cerimônias quando distraída, consentida, sempre.
O inverno se achegava manso, primeiro pelas geadas que queimavam as folhas jovens do café, se a florada queimasse não tinha panha nem pão haveria, e ele bateria nas meninas, nem os meninos escapavam das sovas, curava os vergões com sal grosso, era maldade, mas ele dizia que era preciso, o rabo de tatu lanhando a carne, sem disciplina desandavam. No domingo, todos levantavam, levanta para cuspir, e o rabo de tatu corrigia se não, noites mal-dormidas pelo frio úmido que se agarrava à palha seca dos colchões. Quando alguém urinava, jamais se o podia dizer, calavam-se e na manhã seguinte punham as palhas ao sol, era o acordo, mas o cheiro ficava de em todos os vãos da palha que ressequida arranhava a pele.
A mais velha tinha então catorze anos, branca entre os seios, os ombros vermelhos de se agachar nas covas para recolher as folhas, perigo que cascavel ali morasse, olhos pretos como grãos torrados, o pai de resvalo nela mirava, não demorou. A mãe notou que a menina estava jururu, quieta, amofinada nos cantos, chamou-a, ela não queria, deu-lhe uma bofetada, apalpou, um bico crescia por detrás, a mãe o soube, era conhecimento de si mesma, não podia ser, mas era. Ainda assim apalpou a menina que chorava sem palavra dizer, queria ter certeza, não precisou de muito para que sangrasse a menina também, os dedos escuros marcados trouxeram o sangue da carne que era sua própria carne, eternamente violada. Chorou e disse calada para sempre menina sobe naquele cavalo e vai embora para mais longe que puder galopa toma leva os patacos vai nem olha para trás corre para a comadre Dunga e nunca mais volte, espera pelas tuas irmãs, hei de mandá-las igual, vai agora, vai, pelas forças de Nossa Senhora, vai. O vento do inverno cortou o rosto e gelou as lágrimas que iam ficando para trás, misturadas à geada, que comia tudo, fantasmas surgiam nas brumas, tudo depois e sempre tão sem misericórdia.
Matutava. O dia passou e ela quieta, cadê Tertúlia, mandei a cavalo à comadre Dunga, por lã, hoje termino a colcha. Ele assuntou bem, então tudo certo, faz frio e a colcha seria de bom tamanho, pois, bem pensado. Ela matutava com retalhos que unia e ocultava as lágrimas sobre a pele ressequida. Cadê Tertúlia ele perguntou, sangrava a cada estocada.
Dia de roça duro, o lampião de querosene iluminava os dedos que iam unindo os pedaços de panos coloridos. Ela lhe deu uma xícara de chá bem quente, ervada de sete, para descansar o estômago, era bom. Que tomasse. A colcha ela terminava hoje. Hoje. Nesta noite fria. Ouvia-se o ronco pesado da fera satisfeita. A colcha, pronta. Agora não havia depois, havia sempre.
Noitinha de Tertúlia já na casa da madrinha.Ele dormia e era a hora. Cobriu-o com ela a colcha de retalhos coloridos, acarinhou. Então, lãs negras surgiram entre os dedos e foram costurando a colcha sobre a fera adormecida, em volta, a múmia, o ronco e a lã unindo os pedaços, nem se ouvia o sis da linha unindo os retalhos, pois. Pés em trouxa, não podiam se mexer, os braços, também não. Pegou do lampião. Verteu derramado. Nem ouviu quando ela fechou a porta do quarto, o cheiro de querosene chegou ao nariz dele com as chamas.