Caminhante de um todo, Gervásio sentia bruta sede. Avistava o ipê amarelo, no alto do morro, e sabia que perto de casa estava, todo seu coração nela, Zuleika.
Boniteza toda prosa no colo alto de seios pontudos, o ipê se envergonhava de tamanha altivez. Era de pouco falar, cismada fêmea, mas na calada, toda dele. Ninguém dela podia nada nem uma sílaba proferir santa e dedicada, todo dia, toda hora, dele. Delicadeza silenciosa, delícia, deleite, dele e de ninguém mais era, se sabia.
Porém, sempre tem, a carta. Maldita. Ditas as palavras feriram: ela tem outro no seu viajante. Vassuncê que nem pensava: clássico de tudo - o compadre José Monteiro. Dores de duas, o melhor amigo e a mulher bela santa, assim, sem dó nem vergonha, fazem o nó, a jaguatirica devora o macaco. Marimbondo na pálpebra sem espera, aferroada no branco, doía mais do que na pálpebra, abra os olhos, seu Gervásio. De soslaio, voltou cedo, mundo redondo que gira e trai. A garrucha seca por cano em pólvora cuspir. Pior: o autor da missiva nem se ocultara era Juvenal, o capataz de confiança, solteiro passado que morava depois do rio, e os emaranhados escritos eram dele mesmo, conhecia a letra ruim dos cadernos das tarefas. Assinara: Juvenal, este seu criado. Preferira escrever para não chamar ao tento, que fosse possível o flagrante, sem espanto, que a letra é fria e pensada. Depois do flagra, testemunhava.
Tinha que ser tudo bem armado, José Monteiro era das leis conhecedor, contador da fazenda, o dinheiro nas mãos dele cautela demanda, assim se conheceram, primeiro na lida, depois as mulheres de peito se fizeram amigas, Zuleika e Jacobina, comadres de boa prosa e bolos trocados, e eles de coração de homens, que amor entre homens é lealdade.
A safadeza era sempre às terças-feiras, delatava a carta, às quatro horas da tarde, quando o menino maior estava na escola e o caçula brincava na casa da Jacobina, sem saber ajudando na apunhalada, ele guiava o caminhão à cooperativa, buscava sustento para a desgraçada, na casa deles mesmo, o ipê saberia, decerto de tal desfeita para ele e a pobre da Jacobina. Vamos ver de olhos pertinho; parou o caminhão a três léguas da fazenda, ocultado no cafezal. Gente do mato desconfia como lagarto na beira da estrada. Ia ver, veria e foi, um olho para cima, outro para baixo.
Entrou por detrás, tocaiando. Sentiu o aroma do café que se plantava e se torrava ali, no pátio de tijolo queimado, tudo esparramado dava gosto de ver o grão vermelho no escuro do marrom ganhar tom de terra, mais escuro, mais sabor, era como o sangue da leitoa que fazia chouriço.
As narinas infladas, café gostosura, e se muita gente choraria, tinha os pequenos, pararia, qual homem pode com imensurável desacato destes, pecado assim só sangue e lágrima lavam, era a lei, a fogueira de junho quando vira queimada arranca da terra toda a dor contida nela e é só estrago. É e pronto. Mato e remato, pronto.
A carta missiva explodia no alvo do coração, guardada na jaqueta, plantada. Raiva é assim, só se pode saber quanto depois de estourada de bois. Lembrava do dia do casório, ali mesmo onde ele pisava manso agora, festança pujante, as famílias felizes arrastaram os pés no terreiro, até da sogra sempre gostou, ainda que a mãe, já falecida, dizia-lhe, filho, mulher formosa sem dote quer é as terras para na viuvez desfrutar, que o quê, quando nasceu o primeiro menino, o touro, sem castrar porque ele queria comer os bagos, inteiro no espeto regou-se a vinho e cerveja de muita para os peões. Zuleika depois de cada cria mais bonita se punha, leiteira.
O batizado então exagero dos grandes: quatro capados, dois bois e um novilho, que a carne tenra é para os menores. Boi e porco nunca desconfiam da hora do abate, viram comida de todo e todos se regozijam na dor deles cabrito, porém, berra sentido no antes. Coisas da roça.
Compadre José Monteiro era orgulho lustroso no terno riscado: tinha brilhantina no cabelo e olhos de cor da mata igual aos artistas das revistas que Zuleika guardava no baú, não gostava que mexessem, agora ele somava: a comadre Jacobina nem se comparava à Zuleika, formosura ali havia corrido há tempos para o capoeirão, era feia mesmo saracura-seriema de pernas finas sempre com bucho molenga, e ele, Gervásio, como ela feio era, só varão fazia, e por fortuna da linhagem saíam à beleza de Zuleika. Bom que fossem varões, que ali tinha serviço para homem macho a não mais poder, o café, as laranjas e agora cana-de-açúcar, com a cooperativa, um dia todo no caminhão na terça, fartura tinha que ser cuidada e dividida, ele pai de dois meninos sabia, o compadre de duas pequerruchas, graciosas, mas teriam que casar para tocar as tarefas porque que mulher pouco pode, os meninos dele e de Zuleika bonitos até demais, até isto agora se juntava, como não desconfiara? - o caçula depois da carta tornava a soma quase certeira, a beleza da mãe e os olhos que nem as folhas das matas. Por que número quando certo não mente? Noves dentro, noves fora. A soma crescia. Para o compadre José Monteiro e ele perdia, perdia mulher e talvez nem filhos tivesse.
Inda bem que Juvenal escrevera, ou como boi de abate a vida dele era seguida; pouco sabia o Juvenal de frases, mas da coisa ruim tinha detalhes o escrito do capataz ela gostava sentada na cadeira beber dele primeiro, vadia sedenta serpente enredeira, depois dava de tudo, de todo jeito, a rameira, remoía os redemoinhos de ventos dentro das tripas.
Empunhou a garrucha. Na cozinha era a farra, a carta apontava até onde. Bala tinha para os dois e para quem mais pelo meio se metesse. Fácil era pela janela ver, a carta dizia nem variam, a safadeza é igual de boa toda terça, não falha, o relógio que o avô lhe dera saiu do bolso e faltava um tiquinho para as quatro, olhou, viu e reviu: era Zuleika de costas, o compadre de frente com o terno de riscadinho, afronta e libertinagem andam de juntos, ela inclinada, beberagem de cadela, comiam-se, nem pensou, sem piscar, abriu fogo, revoada de anus no ipê amarelo, bala de chumbo-corta-carne, sangra porco-porca no chão batido de barro, tumba feita: morte, rolaram, estrebuchando-se. Átimo de lucidez, o sangue esfria o ódio, pensou no abate de bois e de porcos no dia do batizado, cabrito berra sabedor.
Não se ouviu o grito de espanto da garganta seca de indigna, não, pois o rápido que fora tudo fizera tarde - viu e entendeu: era a saracura-seriema Jacobina ao invés de Zuleika, e o Juvenal, o capataz delator: de compadre no terno de riscadinho de José Monteiro, quando ouviu parado, assassino, reavivado o próprio José Monteiro à frente, natural como o boi que caminha para o corte,até porque já se soube caído da arapuca, deu-se, reagiu, saraivada de grãos estendidos no solo, grãos vermelhos espalhados no terreiro, os buracos florindo pela pele, a carta ensangüentada caía no chão, empapada ninguém nunca mais a leria. Quando se solta a alma do corpo, dizem, se vê tudo de frente e de trás sem o tempo de relógio é outro:
Juvenal, vá a casa do Gervásio, minha mulherDona Jacobina está lá e tem que lhe contar segredo ao pé do ouvido, vai lhe apresentar moça de família que faço gosto de que se case com vasuncê, dou dote de coração mesmo, põe este terno, confia que é coisa boa ou não sou o contador desta fazenda, que é capaz da moça também por lá aparecer. Obrigado pelas anotações adiantadas que já no começo do mês vou precisar delas.
Mulher, fala com o Juvenal, ele tem umas coisas a pedir, sabe, homem solteiro precisa de conselho de senhora, autorizo. Tenho uma moça para apresentar a ele, sabe como Juvenal tem sido capataz de lealdade. Marquei na casa do compadre Gervásio, que é meio do caminho para os dois, comadre Zuleika lá vai estar.
Comadre Jacobina, entre, o seu Juvenal está na cozinha. Vou levar o pequeno para a escola, mas volto já, sente-se na cadeira de frente à janela que assim vasuncê sabe se evita o falar que a janela é grande e se pode ver a ele e a senhora. Muito certo, comadre Zuleika, leve o menino e não demore, que tenho uma receita de bolo de aipim nova.
Dois anos depois da tragédia que o povo recita ainda nos dias de hoje se conta: Juvenal havia com a Jacobina do José Monteiro e ela deu-se dentro da casa do compadre Gervásio, enciumado sanguinário gavião de garras, que com ela também tinha, o marido tentou até salvar, não deu, a feita era feita e compadre Gervásio matou a Jacobina e o Juvenal. A saracura-seriema era feia, mas deu-se no assanhamento e dava conta dos três, fornalha de desejo quem diria de uma mulher que nem bonita era, marido e dois amantes de tramóia. Dona Zuleika, tão linda, tão santa, nem pôde acreditar, até adoeceu. Foi ela que deu aviso de proteção para impedir o derramamento, sem efeito, quando compadre José Monteiro chegou, testemunhas viram, o Gervásio abriu fogo no quente do assassinato; tiveram de se defender.
Dona Zuleika: viúva, sem a comadre, sem o capataz para administrar suas propriedades, adoentada, casou-se com o José Monteiro. Juntaram os meninos tão bonitos e as pequerruchas, as terras e o gado. No final das contas, a família ficou maior.