Ela viajava das Gerais ao Sul, buscando o coalho de leite, todos os dias, só descansava no dia de missa, e quando podia; quase nunca, então. Entregava os galões na cidade de divisa com São Paulo e lá tudo virava queijo, e dos bons. Voltava carregada deles. A cooperativa ganhava o coalho, o creme, e os cremeiros o queijo e Teresa sua vida, mulher que era só, mas nem por isso chorava; desde muito cedo aprendera que se chorar resolvesse, o mundo seria um vale das lágrimas. E era, mas ela se recusava a chorar. Escolhera estar consigo mesma e disto sabia ela bem, um-um só confia no um, porque não tem que dividir. Mas tinha amores, a mineira.
Ela também sabia que seria uma viagem longa, com poucas paradas. O burrico crescia as ventas enquanto as pernas tremiam, mas subia a serra, com bravura; Teresa o conduzia firmemente, sem feri-lo, domando-o e convencendo-o a galgar a estradinha de terra amarela. Os meninos vinham atrás da mãe, eles também com burricos, mais burricos que meninos. No meio deles, o louro de Teresa fazia a algazarra.
Ajeitavam as cargas, olhavam para o chão à procura de cascavéis e falavam quase nada. A mãe podia zangar-se. Eram quatro: Antonio, o de onze anos, galego, olhos claros; Teresa o havia adotado de pais leprosos. Manoel, dez, miúdo, moreno da cor de índios, se parecia com o irmão João Carlos, mais velho e maior, pouca coisa. O mais novo, José, um lindo menino mulato de nove anos, calado e doce, os olhos negros e o sorriso largo, cujo corpo já desenhava o homem alto e musculoso que seria, igual ao pai. Esta era a tropa de Teresa, conhecida como Teresa Tropeira - os cremeiros nela confiavam, inteiramente; jamais havia perdido carga, a bravura dela era respeitada em todos os cantos e sua destreza com o facão, temida.
Atarracada, tinha a cintura atada em cinta de couro, dela o facão pendurado tocava o lado de fora do joelho, as ancas largas e o traseiro bonito mostravam que tinha sangue negro, tudo empinado nas botas e nas calças compridas de homem, ninguém duvidava de que fosse mulher, os brincos de ouro polido, herança da avó portuguesa, pendurados e balançando, a única expressão de alegria daquela mulher em si mesma.
O cabelo sempre o tinha bem preso, longuíssimo, preto em tranças com fios prata, tudo oculto no chapeuzinho. Teresa Tropeira era quase bonita, se não fosse tão brava.Desde muito moça, havia jurado, depois que lhe mataram o pai numa emboscada, que só se casaria com um homem valente, que fosse capaz de vencê-la na luta com os facões. Ela, toda ágil, alguns se atreveram, muitos perderam e se perderam por ela.
Alguns dos desafiantes, porém, conquistaram-lhe o respeito e o afeto, dois em especial, um negro alto e forte, João da Cruz, diziam que filho de quilombeiros, capataz da fazenda Boa Esperança, e um bugre também valente, de tão valente, morto em peleja por terras, à boca pequena diziam: pai de Manoel.Os meninos a ajudavam na lida sem queixas nem lamúrias; como homens sem barba e sem força física, mas matariam pela mãe, se preciso fosse, e ela por eles morreria, se os céus assim quisessem.
Teresa sabia que teria de estar no Areado antes que a hora de comer chegasse; tanto ela como os meninos haviam acordado cedinho e a única coisa que tinham posto no estômago era um mingau de fubá com pouca couve. Eles nunca reclamavam, mas ela sabia que precisavam comer substância. Decidiu parar na fazenda Santa Bárbara para o almoço, o povo de lá bem a conhecia, não lhe negariam um pouco de carne e feijão e teriam bom pasto para os burricos. Disse a Antonio que parariam em duas léguas, depois da descida, o menino nada respondeu.
Quando avistaram a capela da serra já sabiam, era o mais difícil, por que baixando, um dos burricos podia falsear e cair, machucando-se e derrubando o coalho. Os meninos, como num balé, puseram-se à frente dos bichos, colocavam a cabeça dos animais perto do peito e amparavam-lhes a descida, pronunciada. O louro ajudava, repetindo as interjeições.
A mãe passou para trás, orquestrando com vogais de tropeiros, o movimento era pensado. A descida corria bem, sem sustos nem solavancos. Na metade dela, porém, foi que o burro da frente empacou; e quando estacou, o galão de talho balançou, arrebentou as cordas e caiu no corpo franzino de Manoel, que segurou os 40 litros de peso, bravamente. Pôde-se ouvir a clavícula partindo como graveto seco debaixo de pássaro grande, o menino nem piou. O louro assustado revoou para uma árvore e observava. Algo saíra errado.
Com dificuldade segurava o volume, enquanto os irmãos em ação sincrônica o socorriam; Antonio continha: ô ô ô, para que nenhum outro burro escorregasse. Teresa soltou apenas um grunhido e orientava Antonio para que segurasse os burricos, enquanto os outros irmãos tiravam o peso dos braços de Manoel e o deitavam no chão. Teresa aproximou-se do filho, passou-lhe a mão áspera no rosto inocente, uma única vez, e apalpou-lhe a clavícula quebrada. O menino sorriu triste, disfarçando a dor. Gotas de suor brotavam da face morena.
Vamos ter que fazer uma tipóia bem atada; aqui debaixo do osso do pescoço... vai, José, corta um pedaço de bambu de dois palmos, bem largo e traz pra mãe, depressa. Tirou a cabaça dágua da cintura, deu um gole ao menino, ele sorveu depressa, ela o interrompeu para que bebesse, devagar.
Teresa fechava os olhos e parecia rezar, José chegou com o bambu, ela o cortou em dois, passou uma metade pelas costas do menino, furou as pontas com o facão, das duas metades, rápida e precisa, encaixou a outra sobre a clavícula quebrada, mediu o pedaço de corda, amarrou de um lado, apertou, o menino gritou, e amarrou do outro lado, ele gritou mais uma vez e foi só o que se ouviu durante toda a descida. Antonio o ajudava a descer, Teresa conduzia do lado de trás da tropa, os outros dois pela frente. Nesta marcha calada e sofrida chegaram à Fazenda Santa Bárbara, o louro cismado no ombro de Teresa.
Na porteira, foi recebida por Nhô Pereira, senhor negro de sandálias de couro, cabelo branco, calças de linho cru, ele falava devagar, pautava cada sílaba e parecia olhar dentro dalma Bastarde, Sá Teresa. Vejo que o menino se machucou. Pois é, Nhô Pereira, já pus a tipóia no osso partido, mas vou precisar da ajuda de Vosmicês para comida e repouso. Muito acertado, Sá Teresa. Vou fazer uma mezinha para o menino e o osso cura mais depressa.
O grupo seguiu até o alojamento, que antes havia sido a senzala. Lá comeram carne com feijão, arroz com carne seca e abóbora cozida. Manoel tomou a beberagem de ervas e a cor amarelada sumiu do rosto, voltava nele a pele de bugre. Nhô Pereira e Teresa Tropeira sentaram-se nos bancos de madeira, perto das laranjeiras. O cheiro, inebriante, as flores brancas caíam no chão, formigas as levavam, estrelas começavam a salpicar.
Nhô Pereira confabulou a ela que tinha tido um sonho que não sabia se bom ou se ruim, logo depois da missa das seis, quando tirava seu cochilinho: e queria que ela procurasse por Dona Neiva, a rezadeira, para interpretá-lo, ele era homem de fazer mezinhas, mas de sonhos, não entendia nada. Sonhara com um menino ferido, lá estava, era Manoel, e com larvas atacando uma moça branca a mando de uma bugre com olhos de gato; no mesmo sonho, ela, Teresa aparecia, lutando com seu facão, lutando com sombras, defendida pelos outros meninos; eles eram tragados pelas sombras, vira também colunas de fumaça saindo do café e no final do sonho uma moça negra dançava numa roda de homens, depois se transformava em moça ainda mais bonita, uma sereia, e caminhava por um corredor de luz. Choraria também.
Teresa Tropeira ouviu, parecia-lhe uma história que talvez conhecesse, retrucou:
Nhô Pereira sabe que eu não acredito em visagens, mas respeito Vosmicê. Tem alguma coisa de modo a se evitar a dor por detrás das vossas palavras? O velho negro sorriu e respondeu mansamente: Sá Teresa, e eu sou homem de saber lá as coisas de Deus? Se Ele me deu a visagem, é por que Ele quer que eu conte a Vosmicê, de modo a desvendar o Segredo. Eu tenho um pensamento, mas pode estar errado; eu quero é ouvir o que Vosmicê tem a dizer, e também quero ouvir o que a rezadeira pode saber disto.
E eu, Nhô, que lá sei eu? Sou mulher de tropa, ando das Gerais lá de cima até as fronteiras com São Paulo, tanto tempo já faz que não há quem não me conheça por essas redondezas. Pois eu lhe digo que se visagem é coisa de anjo, também pode ter demônio metido pelo meio delas, por que quem é um, quem é outro, o coração de gente sabe dizer de jeito nenhum, mas pelas paragens de São Paulo, ali onde se planta tanto café, do baixo ao alto, falam de uma crise muito forte lá no estrangeiro, que deverá chegar pelas nossas terras, dia mais, dia menos. Eu só estou assuntando de ali a acolá, apreciando....mas até vosmicê bem sabe que onde há fumaça, tem fogo, e na sua visagem tem coisa queimando.
Nhô Pereira sorriu ainda mais sossegado. Ah, pois, era disso que eu dizia, Sá Teresa. Uma visagem tem tantos lados como uma roda de carro de boi, que tem dentro, que tem fora. Se Vosmicê me diz que o dinheiro vai faltar nas plantações, há de ser. Se eu digo que vem praga, também virá, e se alguém ficar doente, e se for moça branca de família, haveremos de saber. Pode ser um, pode ser dois, pode ser três. Então não eram três os reis magos? Dizem que houve até um quarto, que se perdeu dos outros três. Por isto quero que vosmicê procure por Dona Neiva, só ela sabe desvendar mistérios. Só mulher conversa com Deus, sem fazê-lo zangar.
Teresa sorriu pouco, e sem dizer nada, levantou-se, e correu com o olhar aquela fazenda tão bonita. Ela se via em cada canto daquele lugar, quem era ela, o que era a fazenda, já não sabia. Já não sabia se era parte daquele lugar ou era o lugar todo, as estradas, os sítios, os rios, as tropas, as pernas, os seios, se tudo isso era ela, sentia em seu corpo cada grão daquela terra, a noite eram os cabelos negros, a boca guardava. Algum tempo viria na vida e ela não sabia dizer que tempo seria, o dia de morrer, como houve o de nascer. Assim era: segredos.
Nhô Pereira levantou-se e despediu-se da velha amiga; viesse o que viesse, teriam de enfrentar juntos, todos eles. Deus punha e dispunha naquelas paragens. Quando os anjos andam pela terra, aos humanos apenas cabe obedecer de bom grado.
Quieto, glorioso, nasceu o sol; com o menino já de mezinha tomada e inchaço pouco, Teresa decidiu seguir em frente. Ela o deixaria ali com Nhô Pereira e voltaria para pegá-lo quando bom estivesse. Ainda queria parar uma vez, para pegar mais coalho, mas também para ver o seu homem, João da Cruz, o negro-rei, ela assim o chamava, por que se parecia ele sim com um rei negro, rei congo, daqueles que vieram nos navios havia tanto tempo, atados em correntes, sem perecer na calunga grande; atravessá-la e chegarem vivos ao lado de cá era sorte e força puras.
Havia vezes que pensava sentar teto com aquele homem, forte como um touro, trabalhador, temente a Deus, mas o destino deles parecia não se juntar naquelas moradas.Teresa sabia, não tinha temperamento para ser mandada nem por ele, não mais poder tocar tropa e andar com quem ela gostasse; João da Cruz jamais havia lhe dito nem uma coisa nem outra, mas Teresa era mulher e mulher sempre supõe, sempre pica e repica miudezas que homem não pode entender.
Teresa também desconfiava que ele a deixara vencer na peleja com o facão, só para que ela ficasse contente, só que para dele fosse, sem medo. Podia que sim: não é uma arapuca grande a pior armadilha contra a onça? Ela entre, cheira a carne, o laço é puxado, a onça não vai mais nem pra frente, nem pra trás. A onça fora pega pelo rei africano.
Andaram mais cinco léguas até a fazenda Boa Esperança, onde João da Cruz trabalhava de sol a sol. Não demorou a vê-lo, estava na porteira, sempre adivinhava quando ela chegava, tinha ouvido mais fino de que cão que fareja onça, tamanduá e jibóia.
Como sempre, ele não se manifestava, apenas se aproximava, João Carlos depressa tirou o chapeuzinho e pediu a benção ao pai; os outros também, e já conhecendo a rotina, passaram depressa pela porteira, sem olhar para nada nem para ninguém, só quando ele deixasse. João da Cruz esperou que passassem os meninos, tomou das mãos de Teresa e a beijou na testa. Teresa, que o vento que te trouxe não te leve tão já. Ela, sem sorrir, só o olhar mostrando a alegria, agradeceu: E que este vento que sopra não conte pra ninguém o quão bem quero a vosmicê. Estas eram as palavras que trocavam há quase dez anos.
João da Cruz, por sua vez, um pouco mais moço, não se casava com outra mulher, talvez tivesse a esperança de que Teresa um dia quisesse parar e ele lá estaria, com uma pequena casa de colonos, para que ela ficasse. O vento haveria de parar um dia, não há tempestade que para sempre dure, nem mal, nem doença, nem gentes que na terra sempre pisem.
Contou a ele o sucedido com Manoel, e ele aprovou tudo o que ela havia feito. Vosmicê fez bem certo e bem direito. Menino de peito quebrado não traz sorte pra tropa nenhuma, nem grande, nem pequena. Deixe ele sarar e então volta. Está em mãos boas, as de Nhô Pereira. Venha, quero lhe mostrar a secagem do café a quantas anda.
No terreiro, o café para a secagem era um mundo de cores, verde, vermelho, marrons; João da Cruz pegou do ancinho e começou a revirá-lo, ora pra cima, outra pra baixo. O cheiro dos grãos adentrava as narinas violentamente e punha os sentidos todos em alerta, como se ritual, como se namoro.
Teresa Tropeira olhava para o seu homem, ela sabia que o amava, porém jamais estariam juntos, tudo era efêmero como aquele aroma e tudo era belo como ele, agora sem camisa, os músculos brilhando em meios aos grãos, ele sorria e olhava para ela com a mesma sensação de que aquele momento era como um café bom, tão breve, tão denso, o gosto ficava na boca quase como um sempre, a espessura na garganta.
Teresa não podia ficar parada; também tomou do ancinho e ajudava o companheiro...assim que um tucano apareceu para roubar grãos, furtivamente, João da Cruz pegou na mão da companheira, jogou os ancinhos dele e dela no chão, e seguiram, pelo canto do café já revirado, para trás dos celeiros.
Os cavalos relincharam alto e a noite caiu cansada e confortante nas Gerais, enquanto os meninos sonhavam com sua mãe, com tropas e burros valentes. O louro repetia os gritos de Teresa comandando os burros.
Os irmãos, sempre que paravam na fazenda Boa Esperança, se sentiam um pouco enciumados de José, mas só; afinal, ele era o único que conhecia o pai, mas não se atreviam a formular este pensamento. Sabiam que a mãe suportava tudo, menos a traição, e sabiam apenas que deviam respeito àquele homem. E era o todo que tinham precisão de saber, naqueles tempos, meninos só acatavam o que mais velho dizia, era a lei.
Quando amanheceu, eles acordaram com o cheiro bom de bolo de fubá que a mãe preparara; ela fazia aquele bolo quando estava contente, e Teresa estava radiosa como fubá amarelo, brilhante como o creme de leite de manhã no tambor. Depois que tudo assentasse, decidira, iria visitar Dona Neiva. Queria saber mais sobre a visagem de Nhô Pereira e entender como aquilo poderia afetar a vida dela e dos pequenos.
Pediu a aprovação de João da Cruz. Vosmicê sabe que ela anda por todos os lugares. Corre o risco de chegar na casinha dela e não a encontrar. Espera pela Folia de Reis, Teresa, que os matutos já estão a ensaiar, e depois, por que o vosso coração pede, marcha e vai, mulher. Pede a ela uma reza por mim, pelo teu menino doente, para estas visagens ruins todas irem embora e para que as boas vicejem.
Pois é o que vou fazer, Seu João. Não posso deixar o tempo correr à revelia dele mesmo. Nhô Pereira diz que é o que devo fazer, esperar, ou então me instigou, nem sei mais eu, vou, para lá, falar com ela, mulher e mulher havemos de nos entender; vosmicê sabe que minha alma é inquieta, não tem sossego. Ela sabe das coisas e vai ajudar. Depois da Folia, toco a tropa pra além do Areado.
Dia seguinte, veio a Folia de Reis. Os cantadores iam de casa em casa, formavam a roda no terreiro, vinha gente de longe ouvi-los.Cantavam aos reis, pisavam a Catira.Teresa acompanhou cada acorde, fez as orações e admirou os trajes em cetim, engomados, as camisas azuis com faixas vermelhas na cintura, os violões com fitinhas dependuradas, e as danças dos reis, agradecendo a vinda do Menino Jesus. O Deus-menino chegara e agradecer era o que nos cabia. Permaneceram no folguedo até o anoitecer, tomaram pinga de alambique e comeram nacos de carne cozida com quiabo. Os meninos sorriam alegres e a mãe alegrou-se também ao vê-los assim, meninos, outra vez.
No outro dia, partiram para os lados de Dona Neiva. João da Cruz sentiu um aperto no coração e quase pediu à Teresa que ficasse, mas calou-se. Sabia que não mandava na vontade daquela mulher, só no coração podia adivinhar e pedir a ela. Neste sentimento foi que Teresa partiu.
Ela, rezadeira de ofício, negra, diziam que a mãe tinha sido escrava, feiticeira de mão cheia. Sabiam curar mordida de cobra com ovos cozidos. Não tinha mal que não pudesse ser extirpado com a reza forte dela; com uma corda encardida fazia e desfazia nós, pelo laço de Santo Antonio, a corda era o segredo. Quando o mal adentrava corpo ou casa, era Dona Neiva, a rezadeira, a que era chamada para livrar o vivente.Óculos de fundo de garrafa, dentes não tinha mais, devia já ter muita idade, o cabelo crespinho, caracoizinhos grisalhos, era ágil sobre as pernas de seriema, o sorriso, demorado, todos mistérios só ela sabia saber.
Uns diziam que se chamava Joana, mas por São João tinha respeito demais, e decidira por chamar-se Neiva; rezadeira foi por conta do povo, ofício também marca nome e sobrenome. Era bem lá de cima, e até guerra sangrenta tinha visto, mas não sabia dizer de onde, os filhos e o marido haviam sido mortos. Como havia vindo tão para o Sul ninguém perguntava, mas também diziam que quando moça-menina era andarilha, andava com o tempo bom, andava com o tempo ruim.
O fogão de lenha tinha santos onde cabiam, o quarto dela também: São Jorge, Santo André, santo que a gente nunca tinha visto, qualquer imagem rejeitada ela adotava e cuidava, velas queimando, poucas, mas sempre tinha vela acesa. Uma mesa de madeira escura com bacia de ágata e água dentro.O tempo se movia nas águas da bacia.
Na manhã de sol generoso, o pai da menina do sobrado mandou chamar Neiva Rezadeira pelo criado. Nenhum doutor dera jeito na doença que assolava a menina, nem as preces do padre. Ele detestava aquela gente pretinha, mas precisava, a moça ficava pior a cada instante. Dona Neiva entrou cantarolando, zum zum zum, quem está lá fora, zum zum zum, é Deus quem me manda nessa hora,a menina estava tão pálida, lábios inchados.
A rezadeira segurou-lhe o pulso fino que saía das rendas, lamentou com o olhar, chacoalhou a cabeça. Chamou o pai e pediu-lhe que mostrasse onde a moça tirava a fresca. Ele apontou uma laranjeira alta, frondosa, debaixo dela, na esteira, a menina descansava às tardes.
Dona Neiva foi até a esteira, ergueu, procurou, rodeou, não achou, voltou para dentro da casa, desfez a trança do cabelo sedoso da moça, faltava um bocado, fora cortado à faca, ela ardia em febre maléfica.
Espreitando, a vizinha do lado olhava através da cerca, curiosa, cinquenta anos, morena-jambo, cabelos negros escorridos e muita carne nas coxas, os olhos verdes faiscando, parecia apreensiva. Dona Neiva perguntou a ele se eles se davam bem, não: uma galinha dela havia pulado para o quintal dele, o cachorro a comera, pena por pena, a vizinha queria outra, ele não deu. Ela jurara vingança, mas ele não se fiava de boca de mulher solteirona. Devia, seu moço. Mulher pode fazer coisa quando tanta raiva tem e quem paga é inocente.
A rezadeira volta à esteira, cava embaixo, encontra um saquinho preto, desamarra, lá está o tufo, tem tanta coisa dentro, ossinho sujo, espinho, titica de galinha, o pai não entende, ela sorri e pede que traga a moça para fora, coloque-a sobre a esteira, a moça sua, o pai assustado.
Dona Neiva vai tirando ossos, caco, espinha de peixe, semente podre, quebra um por um, dá volta em torno da moça, as canelas secas quase dançam; Quebre-se o feitiço em nome de São Benedito, eita preto bonito, preto atrevido por ordem de Cristo, pedra de poço branca, há de flutuar sem afundar, Santo Antonio, com sua corda, destranca o cadeado, tudo se pode,e só quem pode mais é o Bom Deus, a corda faz cruz no ar, no peito da moça.
Ela começa a gemer na esteira, a vizinha observa tudo do lado de lá da cerca, a velha negra dança nas canelas, abre e fecha, o corpo magrinho ora para um lado, ora para o outro, ela ora alto a cada porcaria que vem do saco, pele de sapo, pena de urubu. Corte esta força a espada de São Miguel, que é anjo de céu, mensageiro de Patriarca, a arca se abre e vem a proteção.
A moça se retorce inteira, pura papa de suor, depois uma tremedeira assola-lhe o corpo, a vizinha se pendura na cerca grita e xinga Velha feiticeira! Catimbozeira! Te esconjure, o diabo te leve!, gruda as palmas no arame, se rasga e sangra, ensandecida.
A menina dá um grito abafado, o pai em horror vê: larvas amarelas apontarem do alto da cabeça da moça, são peludas e trazem o sangue da menina à tona, sangue ralo e enfraquecido. Dona Neiva olha para cima, benze a terra, bate o pé no chão, a vizinha vocifera: Mandigueira, vai salvar branco? Dona Neiva responde em cântico: Deus era branco, preto também era, que o mal que colocaste saía todo pela janela.
A bicheira se esparrama no chão, a moça como se tivesse nadado em enxurrada, a vizinha do outro lado se ajoelha e começa a chorar, desmorona, estrebucha e cala, o pai permanece ali, feito estaca de curral, incrédulo, o silêncio acompanha as larvas que morrem debaixo da luz.
Dona Neiva diminui o fervor das palavras, o corpo se aquieta, olha para o Sol, chama pela Lua... Vai-te mal pra rua de onde veio, que segredo desfeito não dura nada, não.Como se o ar esfriasse, ela toma das mãos do dono do sobrado, segura firme e olhando nos olhos dele, diz; Feitiço forte só pode ser quebrado ao meio dia, o senhor fez bem em me chamar. Agora, faz o favor de rezar sete missas para as almas benditas. Ela vai ficar boa.
Ele, agradecido, leva a filha para dentro de casa, manda que cuidem dela, vai mandar matar um capado gordo, pede a Dona Neiva que fique, ela nada dele quer, ensina as ervas, caldos e beberagens para que a moça sare mais depressa.Dona Neiva sai pelo portão e só quer as missas das almas.
Dois dias depois, a menina viçosa como a laranjeira, ouve o pai dizer: Velha preta feiticeira não hei de mais precisar!.
O fogão trepida, Dona Neiva reza, e triste, conversa com aqueles-que-não-são-vistos nas águas da bacia, o rosto encruado do dono do sobrado desaparece como em redemoinho findando, com as palavras ingratas Feitiço forte as almas benditas quebram, coração duro não tem reza que cure. Deus é um vaga-lume que só se alumia na escuridão.
O colóquio segue, o monólogo de dentro para fora. Dona Neiva assunta os que sussurram: a mulher forte vem lá de cima, vem pedir melhor tempo. Ajude-a e dê-lhe orientação, pois está com enfermidade maléfica, não lhe diga de tanto, pois vai sair da vida como quis e quer, guerreira.
Olhando pela janela de madeirinha azul, depois de bem se entender com as vozes daqueles que a protegiam, Dona Neiva vê, apeando, Teresa Tropeira e três dos meninos.
Cumprimentaram-se sem muitas cerimônias e Teresa se senta na cadeira branca, no pé do rabo do fogão. Dona Neiva:Sá Teresa, que a santa que lhe rege, reja também os dias do porvir. Vosmicê está aqui para saber das visagens de outro velho negro, irmão meu nalma; pois bem, direi a vosmicê, sem delongas, que tudo que ele viu há de se cumprir, no tempo certo e no tempo incerto, que de dor o mundo já tem muita.
Vosmicê, Sá Teresa, nem precisa perguntar; o menino vai ficar bom, bom de todo. Nem precisa se preocupar, a moça que ia adoecer, vim de lá não faz muito, o único mal que padece a casa onde vive ela é a ingratidão. Dias de Reis vão se passar até que falte os patacos em terras estrangeiras, e a visagem de Nhô Pereira adiantou-se, e no muito, mas a verdade às vezes se adianta porque tem pressa em ser conhecida, em outras, se atrasa, que a hora não era cabida
Um menino que vem de seus será doutor, mas não vai poder lhe ajudar. Só em tempo longe a enfermidade que vosmicê carrega hoje poderá ser curada, nem nome sei se tem, não. Tem que deixar eles aqui, os meninos, pois se forem com vosmicê, não voltam, vão defendê-la de sombras que desconheço.
Tudo longe, tudo perto. Deixe estar, nenhuma sina pode não ser cumprida, nenhuma linha escrita vai ser mudada. A moça mais bonita saberá quem fomos nós, e vai chorar, vai chorar de alegria.Teresa Tropeira agradece, dá um abraço forte em Dona Neiva. Voz de anjo, que nunca teve, saiu da boca da Tropeira: Parece que o entendimento já estava no meu coração, assim como vosmicê sabia que eu vinha e sabia o que tinha a me dizer. Vou deixar os meninos aqui, para que voltem à fazenda Boa Esperança. A senhora os há de orientar. Que voltem para João da Cruz, que deles há de cuidar, e diga a eles que busquem o irmão na fazenda Santa Bárbara, quero-os todos juntos, como sempre foi. Daqui, toco minha tropa de burros sozinha, e sei que meu destino me abraçará
Sem que precisasse responder nada, porque Teresa nada perguntara, Dona Neiva compreendeu. Teresa disse aos meninos que ficassem, sem retrucar. Passou os estribos no burro mais forte, empunhou do facão e seguiu pela estrada.
Teresa tocou, sozinha, sua tropa de burros. O vento das serras baixas acariciava-lhe a pele morena. O sol se punha por detrás do matagal, quando ela ouviu a aproximação dos inimigos. Sorriu. A hora chegara, mais depressa que visagem de homem ou de mulher. Teresa Tropeira foi morta numa emboscada, não sem antes ferir igual de morte os seus agressores. Enterraram-na debaixo de uma paineira e lá tem uma cruz branca, onde alguns peregrinam: mulher valente do coração bom ajuda quem tem causa justa para lutar, quer esteja viva, quer seja alma.
Anos passados depois, esta história contava Antonio sobre aquela que o adotara, de como Teresa Tropeira deixara a vida e se tornara uma lenda desde as Gerais até o Paraná.Ele e os irmãos, crescidos e entendidos em café, foram para o Sul, a trabalhar nas fazendas dos imigrantes que chegavam mais e mais. Porém, o dia de quando terminaram os patacos chegou. Nenhum fazendeiro estava preparado para o que veio.
O Senhor de Giuli e sua família mudaram-se para o Brasil fugindo das guerras que pipocavam no Velho Continente, e trouxeram o dinheiro que tinham. Velho e Novo Mundo se encontravam insolitamente o mundo é um só.
Puderam comprar terras e começaram o plantio do café. De Giuli conheceu Doña Lucia, a família dela também no Novo Mundo à procura, deixaram a linda Espanha para trás; já não ouviria as guitarras flamengas e nem ouviria o lamento cigano, quando chegaram ao Brasil, já não havia escravos, mas os filhos deles, homens e mulheres trabalhadores, fortes, Desde as Minas Gerais até o Paraná, a terra roxa dava plantação sadia.
O presidente do Brasil anunciou a quebra da Bolsa de Valores em Nova Iorque, os fazendeiros viram o preço da saca de café despencar como avalanches. O presidente quis baixar o preço do café de um tanto que nem enxadada pagava; então, os produtores decidiram salvar anos e anos de trabalho: queimariam todo café.
As chamas subiam alto e o cheiro de café queimado se o podia sentir por léguas e léguas; colunas de fumaça manchavam o azul esplendoroso do céu, erigindo o portal da perda. O Senhor De Giuli media o tamanho das colunas com seus olhos azuis; o bigode espesso cobria o vinco da boca amargurada. Ninguém notava as lágrimas que caíam por detrás dos monóculos. Podia se ver os trabalhadores ateando fogo às pilhas de sacas, os meninos do Areado, agora homens feitos, ajudavam, arautos de uma destruição pressentida por um senhor negro de sandálias surradas.
Todos sofriam com a perda das colheitas, ricos e pobres penaram. As meninas, filhas do casal, tinham por obrigação permanecer em total silêncio, o filho mais velho gritava excitado, dando ordens aos trabalhadores. Dona Lucia tinha os olhos arregalados e não pronunciava nenhuma palavra. Mulher não falava, sofria, sempre.
Porém, ao ver Rosa, a filha de sua cozinheira, filha de negro e branco, que mistura mais linda, um corpo de estátua talhada em mármore, uma cigana mulata, Dona Lucia teve uma idéia deviam espantar a tristeza dali.
Rosa, esta noite, chame a todos, chame os amigos e aqueles morenos que sabem tocar esta música alegre como a de minha terra, é o único jeito de mandar toda a tristeza embora. Também devem estar os que vieram do Areado, os filhos da Tropeira, todos os quatro. Faz isso, Rosa, senão é capaz do meu velho morrer de amargor...
Rosa aquiesceu e saiu em busca dos rapazes. Não havia clima para festas, mas ela conhecia a patroa, espanhola de fibra, daquela parte da Espanha onde todos são alegres, tocam guitarras e enfrentam o deserto.
Doña Lucia, quando moça, tinha sido bonita; generosa, fazia vistas grossas aos muitos casos que o marido, italiano galã, mantinha pelas redondezas. Murmurava-se que a própria Rosa era filha dele com a cozinheira, mas Rosa não sabia, ninguém sabia Rosa era tratada como alguém da família, a mãe de Rosa cozinhava, Rosa bordava, e a vida se fazia na fazenda, os homens na lida com o café, e o café agora não valia mais nada, era só o que se precisava saber. Famílias se fazem assim, nas horas do desespero também.
Rosa segurou as saias, apertou o passo e chegou ao vilarejo dos colonos. Podia se ver o pesar no rosto de cada um. Como se um funeral tivesse sido anunciado sem defunto, como se o dilúvio chegasse sem água. Ninguém sabia ao certo o que aconteceria dali pra frente.
Vamos, minha gente, vamos pedir a Deus. Quero falar com o Durvalino, com o Pedro, com o Tião. Os filhos de Teresa Tropeira também virão, estão na lida lá no terreiro, mas vamos precisar de todos. Doña Lucia pediu para que a gente se reúna em frente à casa grande; vai ter samba esta noite, samba triste para alegrar o patrão, samba para alegrar a gente toda, por que se deixarmos agora, a tristeza vai fazer montaria e tristeza mata mais que coice de mula prenhe.
E assim foi. Rosa nunca dançou tão divinamente, todos embevecidos, o som se mesclando aos cheiros de queimadas. Os filhos de Teresa rezaram no final e pediram que viesse um tempo melhor para todos. Que a boa alma da mãe os ajudasse. Rosa chorou sem mostrar, dançou mostrando o amor à terra e ao plantio. Era o que se podia fazer, mover o corpo para se sobreviver, disto sabia ela, toda movimento e som. Antonio nunca havia percebido como Rosa era bela.
Após a morte de Doña Lucia, Rosa cuidou do Senhor De Giuli até que o bigode dele embranqueceu, e ele então, já bem velho, juntou-se à amada espanhola. Rosa acabou migrando para a cidade grande com Antonio e lá trabalhou como cozinheira, com ele teve quatro filhos, que lhe deram nove netos, envelheceu também em boa paz e morreu, serenamente, como ela sempre desejara. Antonio a seguiu. O tempo passava.
Os filhos dos europeus permaneceram lá, as cidades cresceram, alguns se tornaram doutores, outros se foram para as grandes cidades, como os outros dois filhos de Teresa Tropeira, Manoele João Carlos.
José descobriu um veio de ouro e tornou-se fazendeiro no Mato Grosso, casou também e teve um filho que pegou gosto pelo estudo, e com muita luta terminou o Clássico, antes de se casar com uma negra bonita e ter com ela dois filhos, um menino e uma menina, foram poucos, pois apesar de forte, a mesma doença que Teresa Tropeira teve o levou para junto dela.
A filha de José teve um belo rapagão, por demais parecido ao avô João da Cruz e este rapagão, Carlos da Cruz Soares, mestiço que estudara medicina, lutava contra aquela rara forma de Leucemia; o mesmo sorriso demorado, medicava os moradores com comprimidos e palavras de compreensão, talvez a enfermidade fosse de fundo genético, talvez fosse devido à alimentação precária por gerações apesar da fartura, verdura variada não fazia parte do menu daquela gente. Era o mal que havia pressentido Nhô Pereira.
Carlos da Cruz, com seu olhar meigo e mãos firmes, ministrava não só medicamentos, mas esperanças, ensinamentos e paciência, dom de sábios. Por detrás dele, a força de sua avó, Teresa Tropeira, o guiava pelos sertões. Quando Rosa já não mais vivia,nasceu sua neta, de nome Rinah. Rinah tinha olhos azuis e pele escura, nasceu em noite de Lua Cheia, esplendorosa.
Estudante caprichosa, investigava a vida dos antepassados. Bela negra dos olhos da cor de jóias, foi eleita miss da faculdade e daí para se tornar uma modelo conhecida, não, não foi fácil, mas tornou-se, com luta, com discriminações, com disciplina e bom-senso, e com um poder de decisão que Deus lhe agraciava.
Rinah entrou na passarela como uma barca imponente; seus passos eram seguros, suaves, os cabelos trançados até as costas, o ventre liso enfeitado pela fileira de penugem delicada, a pele de alabastro refletia magicamente as luzes que vinham de todos os lugares. O Shopping estava repleto de caça-talentos.
Rinah desfilava um vestido como a rede de pescadores do Nordeste, todo tramado, peixinhos bordados nas tramas, uma sereia de longos braços adornados com pulseiras de sementes coloridas. Ao fundo, tocaram tambores, parecia um samba, parecia um lamento africano, uma moda caipira, mineira, maneira, um flamenco de canto profundo.Os tambores choravam e as cuícas se alegravam; violinos também cantavam, os tons musicais eram súmulas.
Rinah sabia que por detrás dela estavam seus ancestrais, os amigos deles, as histórias que viveram; ela parecia vê-los se sentarem na platéia, assistindo ao apogeu de uma história feita de lutas, de paixão, de degredo e segredos.
Teresa Tropeira, a valente, Dona Neiva, a rezadeira, João da Cruz, Rosa, Manoel...a cada passo que Rinah dava, a dor de uma raça violada, a dor de um holocausto jamais dito, beleza crescente, um futuro se anunciava, na batida do coração emocionado, com os aplausos em frenesi, futuro de mesclas, nas terras brasileiras renascia a cada dia, a cada conquista, a cada vitória, nas andanças de Rinah pelo mundo que dela seria. Da morte e da vida, da dor e da agonia, nasceu uma flor.
No dia seguinte ao desfile, os principais jornais do país destacavam a exuberância de Rinah, a modelo brasileira negra que certamente arrebataria o coração de estilistas de todo o mundo. A moça bonita vai nos reconhecer e vai chorar.Rinah chorava, de alegria.