I PRÊMIO CET DE EDUCAÇÃO DE TRÂNSITO

 

1o. Lugar Categoria Estudante

Crônica

 

 Todos os direitos autorais pertencem à Companhia de Engenharia de Tráfego da Cidade de São Paulo.



O Trânsito no meu cotidiano.

Ninguém sabe, mas vou confessar: os carros têm alma. Eu sempre tive a minha, desde que me montaram, em 1975.  Sou um carro grande, espaçoso, mas estou antiquado; agora que o país ficou mais rico, todo mundo quer o carro do ano. Hoje, trabalho para uma funerária. É duro falar disso, mas a gente tem que encarar, mesmo eu, que não tenho cara, só faróis...porque já fui um carrão de donos zelosos, de garotões supervelocistas, de moças prendadas que diziam “esse carrinho é uma uva”. Gente, vou contar: o trânsito de São Paulo tem feito eu trabalhar muito, apesar de minha idade.

Sabe o  que me chateia mesmo?  É o modo como os motoristas me tratam. Quando me avistam, desviam, rapidinho, me evitam, sabem por quê? Dizem que  carro funerário não dá boa sorte, e além do mais, se for roxo. Pois bem, sou roxinho. Me sinto como a caveirinha com a foice, ninguém gosta,  porque sou um símbolo da morte. Puxa vida, eu não provoco a morte de ninguém, não. Morte devia ser coisa natural. Eu só levo o finado para sua última morada. Os motoristas da prefeitura, que me conduzem, me chamam de “ o leva e não traz”, mas, para falar a verdade, não tem nada de engraçado na minha função. Porque a morte não é um símbolo: ela é real e pode ser evitada.

Neste trânsito desregrado de São Paulo, eu tenho visto mortes estúpidas, que não precisam acontecer, tanta gente ferida, sem precisão alguma. A culpa é de toda a sociedade, concordo, mas, principalmente, de quem dirige sem prudência. Quando eles cruzam comigo, levando um corpo ao cemitério, ou mesmo quando estou vazio, os motoristas se comportam; porém, logo depois que me passam, tornam-se feras de metal: os carros rugem, fazem ultrapassagens proibidas e se acham cobertos de razão, passam sinais vermelhos e, se houver um pedestre na faixa, meio desavisado, que não viu o semáforo mudar, coitado, eles o xingam, quase atropelam, e, muitas vezes, atropelam. Puro aço e peso sobre um corpo de carne e pele, uma covardia. Já vi criancinha ser atropelada, já vi velhinho, vi moço novo morrer, uma tristeza. Levei muitos corpos que foram embora da Terra sem que a hora fosse chegada, de súbito. As famílias vão tristes atrás do cortejo, perguntando-se como é que pode: alguém que dirige bêbado e atropela os trabalhadores no ponto, colisões com ônibus, os motociclistas se massacrando e sendo massacrados, uma guerra, cheia de discussões, de violência, de intolerância, as marcas que ficarão no corpo e na alma, para sempre.

Se tem uma coisa que me dá gosto, é ir devagarzinho, e levar uma pessoa que morreu de causa natural, velhinho, cheio de filhos, netos, bisnetos, todos falando da vida plena que aquela pessoa teve. Quanto menos serviço, melhor para mim, melhor para você: é sinal que aqueles que se amam passaram mais tempo juntos, que compartilharam da vida, esta magia única, sem igual. Pergunto-me: será que todos os carros desta cidade querem ser carros funerários? Eu espero que não, então, por favor, parem já de competir comigo – porque chegar bem ao destino é o destino do homem de bem. Dirija com cuidado, para que a sua última volta lá atrás seja daqui há muito, muito tempo; enquanto esta hora não chega, vá com calma para os braços da vida e corra para bem longe dos acidentes de trânsito. O roxinho aqui agradece.

 
 




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