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Pequis de sangue

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Aldo estava preso naquele cercado havia muito tempo, uma cerca de arame farpado,  e bem no meio do terreno, a casinha dele: de pau-a-pique, meio inclinada para a esquerda. Ninguém ousava entrar lá. Só Dona Celidônia, sempre pela manhã, levando a comida embrulhada em pano de prato lavadinho, panela amarrada, uma alvura. Celidônia tinha seus sessenta anos, e era alta, magra, podia se adivinhar as costelas por baixo do vestido preto esgarçado, os cabelos ainda nem todos brancos presos num coque quase impossível. Os olhos dela de um tanto negro que furavam a alma.


Ás vezes, debaixo das sombras dos pequizeiros ao lado da cerca, ele gritava alto, berrando como um boi no matadouro. Não falava coisa com coisa já há tempos. Foi  Celidônia que o trancou no cercado havia anos. O povo só o via de longe, embrulhado em ráfias e trapos, o cabelo longo, barbudo, a pele muito escurecida. Ninguém se encorajava de pular a cerca de arame farpado, não queriam, nem podiam: espetados neles, caroços de pequis, espinhos para fora, uma dor terrível, a cerca alta, intransponível.


Ninguém se metia com ela, Dona Celidônia, fama de feiticeira - murmurava-se que Aldo tentara estuprá-la, só a viam levando a comida: ela batia na porta do casebre, largava a trouxa no chão e saia antes que ele abrisse a porta, há anos, a mesma coisa.


Celidônia fora nos tempos de mais moça a parteira da cidade e todos diziam que de Aldo ela havia vaticinado o sortilégio que o acompanhava já na primeira luz do menino: este camarada nada há de ser, é erva ruim, vai trazer tristezas.


Porém, também se dizia que a antipatia era pela mãe de Aldo, aquela sim, Isabel, mulher de beleza de revista de modista, cortesã do vilarejo na chácara dos pequizeiros, os lábios carnudos da cor púrpura de flor de água rasa, a pele morena clara, e os olhos de mulher que olhava e não via, e que quando via, fingia que não, a beleza é feita deste simulacro, eram do verde da esmeralda cintilante, ganhava jóias e perfumes em celebração aos olhos que fascinavam os homens da região, desde os moleques de recados  até os senhores das fazendas,  porque mulher que sabe faz todo homem pensar que é pertencida,  aquele verde dos olhos dela fez-lhe a fama, o verde dos olhos da mãe de Aldo que fizera Celidônia odiá-la, tanta beleza numa mulher naquele fim de mundo para quê, ali eles tinham que rezar e trabalhar, e quando o pequerrucho chorou alto, Celidônia sabia que ele também teria os olhos da mãe, e ela também o odiou desde aquele primeiro momento, mas eram dizeres, que não se fiasse deles ninguém, que dizeres podem andar de boca em boca sem impostos pagarem. Histórias de Celidônia e Aldo andariam pelas pradarias sem que ninguém soubesse o que era a verdade, o que mentira era.


Depois daquele parto difícil, Isabel adoeceu e nem três meses se passaram do nascimento do menino e ela adoeceu, enfraqueceu, definhou, a pele de morena amarelou como seda impregnada de tabaco, o verde dos olhos foi sumindo como folha de mamona secando na beira da estrada, secando como o corpo franzino que desceu à terra em ataúde de madeira vagabunda, que estralou no momento que ergueram o caixão. Há quem diga, outra vez histórias, que quase se via um sorriso na boca de Celidônia.


Ela cuidara de tudo: esta infeliz nem um lenço com patacos tinha debaixo do colchão, vida de perdida perde tudo, que o diabo a leve, também contam que fora o que a parteira dissera no enterro de Isabel, mas o tempo aumenta como mantas de teares em mãos habilidosas as histórias que se contava naquele lugar, e cresceram as terras de Celidônia, pois se ia criar o menino de Isabel, era de direito ficar com as terras dela, a chácara dos pequis. As terras foram de minha mãe, cale-se, que te criei, desgraçado, para pagar tua comida, mulher da vida ganha terras de homens tolos, eu não, as guardo para ti, um dia.


Ele já aos dezesseis anos parecia então homem feito com umas pernas indecentes, que pareciam querer estourar os panos das calças, aquele vulto oferecido no meio delas, os lábios eram de carne farta, como os da mãe, e poucos anos depois era homem feito de cara cinza por tanta barba naquele queixo quadrado rachado ao meio, tinha que ter sangue negro para aquela pompa toda, a pele de bronze, Celidônia sempre dizia a ele que a mãe fora mulher da vida, e que ele era filho de algum neto de feitor, de viajante, capataz de fazendeiro, algum bruto.


O rapaz cresceu com um ódio daquela mulher a quem tinha de chamar de mãe, tão calado que só de olhar para ela já a imaginava estirada no chão, morta a pauladas, a cabeça macetada, temia a estes pensamentos, credo cruz, e a ela temia também, tinha que, ela lhe ensinara boas rezas, ensinara-lhe a arte das ervas, a saber onde o cascavel estava de bote, onde o jacaré tocaiava a montaria, a ser puro como Santo Antonio e valente como São Jorge. As moças do vilarejo sabiam que perto de Aldo não se podia chegar, era o filho de Celidônia, a fama de vingativa mulher que sabia magia negra. Cruz credo.


No fundo da casa estimada, a plantação de pequis, para algo servira aquela sonsa. Afinal, as árvores nativas já rareavam, as fazendas iam comendo tudo, e ela tivera a sorte de tê-las dentro de suas terras, jamais se casaria, nem Aldo, para não dividir.


Eram umas doze árvores, dramáticas e belas. Ela os colhia minuciosamente depois de janeiro, abria-os e retirava os caroços amarelinhos: dali saía o licor, o frango com pequi, o peixe, o óleo para a bronquite; homens que haviam perdido a macheza procuravam por Celidônia, para que ela fizesse a garrafada. O pequi, depois dos partos, era a principal meio de ganhar a vida dela e de Aldo.


O óleo curava feridas bravas, bicheiras, tirava a dor dos reumatismos. Aldo o preparava, no pilão, resmungava a sua mágoa de quando em quando, mas ajudava Celidônia a cuidar dos pequizeiros, dos pequis e das mezinhas, sem escolha fazia as tarefas que a mãe lhe dava. Tudo a contento até que chegou Carolina.


Carolina não vivia naquelas paragens. Moça rica da Fazenda de Rio Acima, cabelos dourados, adorava cavalos. O predileto se chamava Galego e não era à toa: tinha uma crina loura. A mordida de jacaré no flanco esquerdo, perto do ânus, só piorava, Carolina se sentia culpada por ter teimado e atravessado a água montada nele, ele estacara, mas ela não, se infeccionasse, morreria, só  Celidônia, com o óleo de pequi, é que podia dar jeito, disseram. Para os tempos antigos que eles viveram, Carolina era livre, usava calças de homem para montar, e o pai permitiu-lhe que ela fosse a galopes no corcel negro, com o Galego amarrado ao lado, a acompanhou o criado.


Exímia amazona, a moça chegou com o sol no meio do céu à casa de Celidônia. Antes, perderam-se de um tanto e entraram pela serra de trás.  Carolina encontrou a parteira junto aos pequizeiros e mostrou-lhe a ferida do cavalo. A curandeira sorriu e levou o garanhão ao curral, para pôr o óleo, era tiro e queda, coisa de hora, poderia comer ali se quisesse, com ela e com Aldo, o criado que comesse no curral, este menino, eu que criei, a mãe era mulher da vida e morreu no parto, peixe com pequi, e ela teria seu precioso crina amarela curado, que esperasse ali, na sombra dos pequizeiros, quanto, poucos patacos, só quando o cavalo estivesse bom. Em alguns dias, tinha que passar o ungüento e fazê-lo trotar.


Celidônia, com uma faca pequena, depois de passar cachaça e fumo na ferida, cortou rapidamente o levantado do couro, tão rápida que Galego não relinchou, e pôs na mordida o óleo espesso. Contente com a eficiência de suas mãos, e voltou para onde deixara a moça bonita do cabelo amarelo.


Não a via, e procurando com as vistas cobertas com as mãos para poder melhor enxergar debaixo do sol e dos pequizeiros, o calor embaçando o ar, viu as nádegas musculosas de Aldo, que segurava Carolina de contra a árvore, as unhas dela cravadas nas costas reluzentes dele, a moça ria e lágrimas corriam pela face dourada, era um grito de felicidade jamais adivinhado por Celidônia, existia então?


A mulher magra e envelhecida correu de volta para o cavalo, surpreendentemente ágil, atordoada; como teriam ousado? Ela percebera o fogo entre ambos, mas jamais pensou que seriam capazes daquela bestialidade ali, no seu sacro santo terreno.


Fez-se amiga da moça, que voltava dia e outro, a ver o seu menino, para curar o cavalo, a fazer dele homem, a dar-se debaixo dos pequis. Celidônia lhe oferecia comida todos dias, um jeito havia de ter. Da próxima, não traga o criado, é melhor montar o Galego, já é hora.


 
A prodigiosa mente amargurada não levou tanto tempo para arquitetar a vingança e o castigo: de um cesto, retirou caroços secos de pequi e os colocou debaixo da cela de Galego, com os espinhos sobre o couro do animal a que curara não muito fazia. A mão que cura, a mão que mata.


Entrou na casa pelos fundos, sorrateira, e no fogão remexeu o peixe. Esperou um pouco mais, viu que Carolina, recomposta, voltava para a sombra dos pequis. Dissimulada, materna, chamou a ambos para almoçarem; Carolina, saciada e sem vergonha alguma, com o rosto fresco pela emoção do orgasmo exuberante, perguntou - E meu cavalo? A senhora cuidou dele? Como todos os dias que você veio aqui, meu bem, cuidei do seu cavalo como se fosse meu. É um animal lindo, e a mãe postiça dizia do cavalo olhando para Aldo. O teu te espera, ordinária.


Comeram cheios de prazer o bom peixe bom, a moça rica de fazenda sorriu imensamente para Aldo. Estava feliz. Agora, teria que arranjar modo para vê-lo, talvez pedisse ao pai que desse a ele trabalho na fazenda. Por que não? O pai era bom para ela.


Subiu na sela de um só salto, Galego parecia empinado, cheio de vitalidade, curado por Celidônia naqueles dias de paixão, elogiou grata o tratamento que Celidônia dera ao animal, agora tudo tão melhor, a mão firme e delicada tirou da algibeira um saco de moedas generoso, para o qual a curandeira teve olhos de contentamento e o guardou: a hora da paga.


Carolina acariciou a longa crina de Galego, baixou a cabeça sobre o pescoço do garanhão, os cabelos dela misturando-se, o sol teimava entrar nas mechas, ela sorriu, agradeceu mais uma vez, e docemente o esporou, e com graça, e apaixonada, o conduziu pela mesma estrada que vieram rumo ao sol que se punha.


Quando Carolina galopou em direção a sorte lúgubre, Celidônia preparou os pequis envenenados agora para Aldo, que ele também pagaria: pôs limão e sumo de figueira brava em cada caroço, e os colocou dentro de um saco fino.


Chamou-o para si, tensa, Aldo, meu filho, quantas vezes eu disse que se um dia visse sua sem-vergonhice como a de sua mãe, não haveria perdão possível. O rapaz não esperava o que se sucedeu: como o sucuri quando ataca, o braço seco descreveu curvas fabulosas no ar, e ela batia nele com aquele saco hediondo, e o saco hediondo borrava-se de sangue  a cada golpe, os caroços penetravam na pele de Aldo, pelo rosto, pelas pernas, pelas costas, ele gritava, a surpresa do ataque o pilhara, a velha guinchava como a ratazana ao atacar o canário na gaiola, espedaçando-o. Como Galego, Aldo  empinou antes de cair por terra.


Os espinhos de pequi por si só tão dolorosos, mas com a mistura que ela preparara, eram de uma dor cruel, que Aldo jamais suspeitara que um dia sentiria, na pele, como cavalo marcado pelo fogo.

 

Possuída pela fúria, ela o arrastou, desfalecido, como se fosse um frágil menino. Amarrou-o ao pequizeiro, e fez com que bebesse o sumo maldito, enfiando pela goela com uma colher de pau enegrecida.

 

Ninguém ouviu os gritos de dor, ninguém viu, e a face sinistra da noite caiu sobre a chácara de pequizeiros; Celidônia continuaria seu trabalho - ela o desamarrou e o jogou sobre a cama. A pele de Aldo escurecia, os lábios inchados, a febre o devorava. Ela cortou com a mesma faca que curara Galego toda a roupa dele, amarrou-o com os trapos mais firmemente, enfiou algodão e amordaçou-lhe a boca e, sem piedade, extirpou-lhe um testículo. Os olhos arregalados, a língua quase expulsou a mordaça, o algodão calava o som do grito. Ela enfiou lençóis entre as pernas dele, amarrou o corte com uma tripa de porco, não, a hemorragia não o mataria, iria viver para sofrer, e pôs-se a rezar.

 

Celidônia, a parteira, provara o gosto de ao contrário do nascer um: alguns dias depois, o criado da Fazenda de Rio Acima veio dar a má notícia à Dona Celidônia, a arte do diabo andava à solta: algumas léguas depois, Galego, ninguém sabia a razão, empinou, caiu sobre a moça de cabelo amarelo e a matou, instantaneamente.

 

Uma alegria infernal tomou aquele coração ressequido e de cara triste como uma velha coruja sem ninho, ela disse que seu filho também estava tão doente da mente, do corpo, d'alma, acamado e jururu, o Maldito andara obrando por aqueles dias, preces faltavam naquele lugar. Iria ao enterro da moça, se permitissem.

 

E assim foi. Cuidou dos ferimentos de Aldo, foi ao enterro, rejubilou-se em lágrimas, confortou aos familiares com rezas e ladainhas, mezinhas e chás.

 

Os anos passaram e o viril Aldo fora reduzido a uma figura escura, alimentada pelas mãos que o destruíram, falavam coisas dele, ninguém sabia do mal. Celidônia, envelhecendo mais, tornara-se mais forte. Finalmente, ela o confinou no cercado.

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Aldo não se lembrava de quem tivera sido. Comia por que a boca mastigava, andava porque as pernas se moviam. Emagrecera tanto que era outra pessoa, aquele corpo já não precisava de tanta massa para carregar aquela alma em partida.

 

Finda a época das cheias, o Dr. Luís Antonio de Paula veio da capital para o vilarejo. Os tempos estavam mudando e o governo mandava médicos;  mezinhas só não curavam a malária ou as picadas de serpente.

 

Dr. Luís fez-se amigo do padre, soube de cada um dos moradores,  trabalho sossegado como ele: mãos alvas,  peludas, pêlos finos como os cabelos, penteados de lado, olhos serenos, corpo  e  sorriso discreto, a voz macia, escutava. Devagar conheceu a gente, devagar dava quinino e deixava dose de soro nas casas, ensinava a ferverem as águas e a lavarem os frutos.

 

Dr. Luis queria assistir todos os doentes do vilarejo. Celidônia queria recusar que ele visse a Aldo, tentou, decerto; mas a brandura de Luís e a firmeza do padre a obrigaram. Luís perguntava a ela das mezinhas, como podia ter tanta saúde naquela idade, tinha que ser as beberagens e os pequis, o óleo, principalmente, santo remédio, a comida de substância também, tinha tanto que aprender com ela.

 

Ela se encantou; jamais conhecera a delicadeza de um homem, um doutor da cidade, nem aparentava os seus trinta e poucos, parecia mais sim, de maduro e sábio, então, por que não casara, os estudos desde menino, quem ia dizer, e ensinou-lhe a colher os pequis,  a extrair o óleo milagroso, mostrou-lhe as ervas e ele nem mesmo se recusava a ouvir as belas rezas, atento, aprendendo do lugar.

 

As pessoas diziam tanta coisa de Aldo e dela, por que a senhora não conta para mim, como ele perdeu testículo? Ah, doutor, eu não sei o que deu nesse menino naquela noite, uma coisa muita feia o possuiu, ele tentou conhecer a própria mãe, eu, já senhora naquela época,  o senhor sabe que não sou mãe dele de verdade, mas ele tentou comigo,  à força, corri para os pequizeiros e subi no mais alto, ele também subiu, parecia um bicho que caçava, eu rezei a São Miguel, e ele caiu sobre a figueira brava, desfaleceu, desci e o socorri, vi que aquilo não podia ser coisa dele, era o demo, as pernas bateram nas pedras, esmagou o bago, castigo de Deus.  A mãe não prestava, não, foi a alma ruim dela que fez ele endoidar deste tanto, só pode, eu sempre soube. Cuidei das feridas dele, mas nunca mais foi o mesmo. Para que não se machuque, tenho que deixa-lo no cercado, um pecado.

 

Dr. Luís a escutava manso, sorriu – sorte dele ter a senhora por perto, Dona Celidônia, ou podia ter sido pior, a senhora tem mão de cura, cuidou do corte direitinho. Está um pouco desnutrido, deixe-me levá-o ao hospital, mandar cortar o cabelo, claro que a senhora pode vir junto, sabe como gosto da sua companhia, a senhora sabe tantas coisas que eu não sei, ele é inofensivo, mas é melhor o levarmos, dar-lhe o quinino, vacinas e vitaminas, ou então ele fica doente de verdade, pode até morrer, e isto eu sei que a senhora não quer. Se ele morrer sem dar ordem, as terras que eram da mãe vão para o governo, é bom que ele assine um papel e deixe claro que as terras são da senhora. Ela pensou como pensava e não podia nem arriscar: vamos levá-lo então Doutor mas o senhor faz ele assinar o papel.

 

A ambulância chegou à tarde, Dona Celidônia abriu o cercado misterioso, o motorista entrou com o Dr Luís, sempre sorridente, amável com ela, deram-lhe um tranqüilizante e o colocaram na maca. Confiante, Celidônia preferiu não ir, e Dr.Luís era tão bom, doce tolo, assim se livrava daquele fardo, já estava cansada por ter que  alimentar aquele sonso, que o fizesse o governo, as terras seriam mesmo dela, as merecia decerto, o padre, o médico, que cuidassem daquele traste dali por diante, ia pegar uma menina de alguém para ensinar as artes, que homem é como cavalo, se assanhado, empina, mulher é mais fácil de controlar.

 

Os olhos de Aldo encontraram os de Luís em muda gratidão  e as mãos de ambos, dentro da ambulância, se tomaram. De olhos fechados, Luís parecia ver as cenas de terror, senti-las, tocá-las. Por que sabia daquelas coisas, por que as via desde que escutara falar do homem do cercado?

 

Dr. Luís Antonio de Paula, desde pequeno, tinha visões. Não gostava delas, mas tinha. Eram amenas, no começo, mas daquela vez, desde que chegara àquele lugar e ouvira falar de Dona Celidônia e Aldo, não tivera mais paz. Tudo sabia, daquele mal sem nome, sem saber se de fato sabia, ou pressentia, ou aquele lugar era amaldiçoado, ou bendito, ou o quê.

 

Examinou as pupilas de Aldo, era choque. Com o tempo, recuperaria a memória. Examinou a cicatriz de onde o testículo havia sido extirpado, sabia que era a velha que o tinha feito, nem precisava de intuição, o corte havia sido tão tosco como o ataque de uma raposa ao galinheiro.

 

Quando Aldo recuperasse a memória, contaria. Ele a levaria a polícia, ela ia ser presa. Aquilo era crime, mas teve de manter a brandura, para tirar o rapaz das garras dela.

 

Luís queria a compreensão do que o levara a sentir e pressentir o que o pobre homem do cercado passara, talvez tinha se visto em Aldo, pois ele também estava preso em enredo que não compreendia: diziam que era filho de uma fogosa mulher, mãe solteira e dada a braços de qualquer homem forte que a atraísse, o pai dela, conservador, o mandara pequeno para a capital, criado por parentes que jamais revelaram o segredo, mas as crianças são assim, sabem, caladas, sabem.

 

Deixou Aldo com a enfermeira, no pequeno hospital que o padre o ajudara a construir, subiu na carroça com o moleque e  foi para a fazenda do seu pai  adotivo, um senhor fazendeiro de coração generoso.

 

Celidônia, na sombra dos pequizeiros, sorria.  Anos haviam se passado, tudo saíra bem. Estava vingada de todos, podia um dia morrer em paz, se quisesse. Repentinamente, tremeu: teve a sensação de estar sendo observada, viu duas mulheres debaixo de uma das árvores, sombras ou almas, Isabel ou Carolina, não, era o calor, era a emoção, eram lembranças, tinha que ficar livre. A visagem continuava: o carro do chefe da polícia, assustou-se, melhor fiar-se, melhor não o tivesse deixado ir, o doutor a enganara? Mas se era um tolo.

 

Talvez Aldo se lembrasse, talvez fosse melhor sair dali por alguns dias, se acaso. Ela parecia ver Aldo substituindo-a na feitura das mezinhas, visões de medo, eram, no trato com os pequis, uma moça bonita como a mãe dele encheria as sombras dos pequizeiros com crianças robustas, que ela jamais conheceria.  Viu-se morta no chão, coberta por lama e sangue. Qual. Visões bestas. Nunca, nunca, mão de cura, boca de praga, nunca. Jurava. Matava, mas não morria.

Preparou a carroça, pegou de uns mantimentos, alguns pequis para guisar, podia subir em direção a Rio Acima, todos a conheciam, dariam-lhe abrigo, era a curandeira, era Dona Celidônia.

 

Na estrada, o jacaré escondido na lama tentou morder o cavalo, que assustado, empinou, os velhos arreios soltaram, a carroça voltou morro abaixo, o animal a galopes fugindo, emborcou, o corpo da velha no barro, forrado com pequis foi encontrado dias depois, borras de sangue nos paus de arreio.

 

Dr. Luís chegou à fazenda, tirou o chapéu, filho de uma mulher que se dava pelo prazer de se dar. Seu pai adotivo veio à sala; seria um homem forte, senão fosse tão triste desde que perdera a filha naquele acidente, quase  enlouquecera. Aquele neto bastardo tinha sido a sua salvação, a liberdade de Carolina o libertara, era o momento de contar-lhe, estava escondido na cidade quando a mãe morrera, tomou-lhe das mãos. O retrato dela na parede, pintado a óleo, enchia de dourado, como os pequis, a sala da Fazenda Rio Acima. Ela sorria, misteriosa, na pintura.  


 

 




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