Aqui, colocarei reflexões quanto ao papel dos educadores, reflexões que são frutos do curso de Licenciatura em Linguística da USP.

Porcos de duas pernas

 

Em profunda angústia é como me sinto ao terminar o curso de Didática EDM-402, com a Profa. Dra. Marieta Gouvêa de Oliveira Penna, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. A angústia deve-se ao estado de coisas do país, em suma, que, se era ruim nos anos oitenta, quando o Brasil saía de uma ditadura velada e sangrenta, que amputou o conhecimento humanista tão preservado pela burguesia,  é complicado também hoje, em pleno Séc. XXI,  por questões tão sofisticadas quanto a tecnologia que nos invade pela imposição da Lei do Mercado, este ente abstrato e difuso, mas que tanto se ouve falar, e que passa pelas crianças e adultos como se fosse um Zeitgeist, um espírito do tempo que vivemos, tempos de vaidade e valores iconográficos ditados pela Mídia:  pela televisão sem qualidade justificada pelo Canal Futura que ninguém jamais vê, pelas revistas populares que todos lêem enaltecendo as elites que anunciam seus produtos e produzem  boas revistas educacionais que mofam nas estantes juntos às brilhantes teses jamais divulgadas, pela Internet, a portadora do Bem e do Mal, que também se torna a Papisa deste Zeitgeist,  pela falsa ilusão de que vivemos no mundo admirável e novo e que os problemas sociais, ambientais, políticos e humanos serão resolvidos por ações que advêm de medidas isoladas, individuais, e viva o indivíduo da Psicologia e do Sistema,  inclusive, que pensa, sobreviverá sem o envolvimento das comunidades, sem o engajamento pessoal, apenas com assinaturas nos decretos articulados dentro dos gabinetes forrados com veludo e regados a champagne francesa, claro, este indivíduo de duas pernas crê que sobreviverá, que criará seus filhos e que viverá em um mundo melhor.


 

Obviamente tudo se complicou, obviamente a informação se espalhou, mas, nem tão obviamente assim, a elite permanece, e, para aqueles que deviam mudar o estado das coisas, aqueles que eram de partidos políticos que tinham, em seus discursos, propostas de justiça social, levam-me a pensar em “Animal Farm”, de George Owell, onde os porcos aprendem, após liderarem uma revolução, a andar sobre duas patas, a fumarem charutos e a comerem em mesas suntuosas. O discurso educacional ainda é isto: somos porcos andando sobre duas patas. O pior é que, se nos damos conta disto, nossa angústia não diminui e nos deixa ainda mais engessados nestas pernas que não são nossas.



Porém, de discursos nihilistas, o mundo está repleto, e deles não quero compartilhar. Não há muito o que fazer, a não ser fazer o nosso trabalho, que é o de educadores, e torcermos para que estejamos no melhor caminho – e o caminho se faz com reflexão e estudo, observação e experiência, boa vontade e misericórdia, não no sentido religioso, pois religiões temos muitas e para todos os gostos e os mais beneficiados por elas parecem ser seus líderes e não os fiéis, mas no

sentido humano, que é nossa formação.


 

Nos interessa o ser humano, não nos interessa os porcos, não podemos nos tornar os porcos sobre as duas pernas, temos que conservar nossa paixão pelo outro, nossa misericórdia como educadores: é difícil aprender, aprender a aprender é difícil e aprender que mais aprendemos com os aprendizes é mais, mais difícil ainda, mas, pelo menos,  é humano.


 

Portanto, ao refletir sobre as questões educacionais, educadores, educandos, ao conversar com educadores e educandos, concluo que sem um olhar que se renove constantemente a cada dia, sem acreditarmos nas possibilidades que o ser humano tem, sem acreditarmos que sempre se pode aprender algo de novo neste velho mundo e que ele é uma constante reinvenção antiquada, não somos criativos e se não houver criatividade e emoção no ato de ensinar, ele é como a panela vazia: brilha, mas não alimenta.


 

Se quisermos mudar algo na Educação, mudemos a nós, todos os instantes. Talvez custe um pouco de terapia, um pouco de fé, um pouco de leitura, até de astúcia certamente necessitaremos para cobrarmos do Estado, dos colegas, do sistema, enfim, as mudanças e os recursos para as mudanças que temos que fazer todos os dias. Precisaremos de tudo que já temos dentro de nós, mas que, sem a criatividade e a crença de que é ela que muda o estado de coisas, estaremos fadados a sermos porcos de duas pernas, na ilusão de que jamais caminharemos rumo ao matadouro, rumo à falência da civilização ocidental, quer seja pela violência que ela mesma gera, quer seja pela iminência dos problemas ambientais e econômicos. Pela urgência destas questões, mudar será preciso.

 




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