"Sinal vermelho" é uma poesia que escrevi em 2008, pensando sobre algumas questões ecológicas e na urbanidade em que vivo; então, eu a inscrevi no"Concurso de Poesias de Colatina Elisa Lucinda", no Espírito Santo, e fiquei muito feliz em obter o primeiro lugar. Foi minha primeira poesia premiada. Os direitos autorais são da Secretaria da Cultura daquela cidade.


Sinal vermelho

Quero estar mudo,

surdo,

em surto de solidão voluntária.

Vejo a morte do mundo,

e lamento,

os insultos das paredes de concreto:

tetos incertos os acobertam em sua trôpega autoria. 

A cada passo, os pedestres, empobrecidos,

esfumaçam-se em sinais de subterfúgios.

Fugidias,  crianças roucas vendendo quinquilharias quaisquer,

são malabaristas, são homem e mulher,

como gafanhotos devastam matas um dia virgem de nós,

e atam o destino em confluências de cola cadavérica,

e sobre canelinhas finas de fome incompreensível,

desacatam,

e às luzes vermelhas, morrem.

 

Em frente à escola ,

a moça estática de medo,

faz tanto tempo que esqueceu de como é sorrir,

faz tanto faz que está ali.

 

Lento, cai um lenço do bolso

de um bom senhor,

apoiado na ponta de uma bengala,

cajado atento que o guia pelos prados sem verdes,

brejos de taboas metálicas, onde pousam araras robóticas:

os semáforos abertos com ovas nas bordas não podem pari-lo.
 
Alguém grita e o pneu relincha para a cidade,

cavalos de ferro, meninos grandes,

sem pais e tudo se move: caros carros,

escarros de uma época vencida,

sem prazo de validade,

combalida, a musa vencida,

tropeça e cai,

eu choro

baixinho, baixinho,

lá de trás,

e

desprendidos em penas das asas dos anjos,

há poemas sangrando, há enganos tão doces,

todos girando no ar, e é neles que procuro a paz;

contudo, todo dia, sei:

só a encontro nos ponteiros deste relógio impreciso,

a beleza deste teu imenso olhar.



 




  Site Map