Quero estar mudo,
surdo,
em surto de solidão voluntária.
Vejo a morte do mundo,
e lamento,
os insultos das paredes de concreto:
tetos incertos os acobertam em sua trôpega autoria.
A cada passo, os pedestres, empobrecidos,
esfumaçam-se em sinais de subterfúgios.
Fugidias, crianças roucas vendendo quinquilharias quaisquer,
são malabaristas, são homem e mulher,
como gafanhotos devastam matas um dia virgem de nós,
e atam o destino em confluências de cola cadavérica,
e sobre canelinhas finas de fome incompreensível,
desacatam,
e às luzes vermelhas, morrem.
Em frente à escola ,
a moça estática de medo,
faz tanto tempo que esqueceu de como é sorrir,
faz tanto faz que está ali.
Lento, cai um lenço do bolso
de um bom senhor,
apoiado na ponta de uma bengala,
cajado atento que o guia pelos prados sem verdes,
brejos de taboas metálicas, onde pousam araras robóticas:
os semáforos abertos com ovas nas bordas não podem pari-lo.
Alguém grita e o pneu relincha para a cidade,
cavalos de ferro, meninos grandes,
sem pais e tudo se move: caros carros,
escarros de uma época vencida,
sem prazo de validade,
combalida, a musa vencida,
tropeça e cai,
eu choro
baixinho, baixinho,
lá de trás,
e
desprendidos em penas das asas dos anjos,
há poemas sangrando, há enganos tão doces,
todos girando no ar, e é neles que procuro a paz;
contudo, todo dia, sei:
só a encontro nos ponteiros deste relógio impreciso,
a beleza deste teu imenso olhar.